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CUIDADO, namoro via Internet pode trazer crimes sexuais e patrimoniais por trás das juras de amor

BRUNA CHAGAS – ESPECIAL PARA O PORTAL DO MARCOS SANTOS





O velho ditado da bisavó permanece de pé, em plena era da informática: “Quem vê cara não vê coração”. Os relacionamentos virtuais, com trocas de fotos, vídeos e palavras carinhosas entre desconhecidos, tornaram-se um perigo para a segurança. A advertência é da delegada Débora Mafra, da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM). Ela fala com base nos casos que estão batendo à porta da delegacia. O clima de romance virtual tem levado a finais nada felizes. “Estes aplicativos, que hoje estão em abundância no mercado, principalmente de relacionamentos, estão nos trazendo transtornos”, revela.


Em Manaus, só em 2017, de janeiro a dezembro, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP), 207 mulheres foram estupradas, sendo que no ano anterior tinham sido violentadas cerca de 164. Ou seja, o número só aumentou. Além disso, nessas estatísticas, não entraram crianças e adolescentes do sexo feminino. A SSP ainda não tem os dados informando se alguns desses estupros foram cometidos a partir de um encontro marcado, após a vítima conhecer o agressor em um aplicativo ou rede social. Alguns casos chamaram a atenção das autoridades que voltam a alertar os perigos e informam os cuidados que as mulheres devem ter ao se encontrar com algum “conhecido” da internet. As vítimas não são apenas mulheres.


“É muito perigoso nós, não só as mulheres, mas todas as pessoas, irmos a encontros com pessoas desconhecidas. Os crimes aumentaram, principalmente entre as adolescentes”, revela a delegada. O perigo se concretiza quando a tela do computador ou do smartphone não separa mais as partes. Um rapaz marcou encontro com adolescente, em Manaus, após se conhecerem por um aplicativo de namoro. Ele acabou cometendo um assalto, levando os pertences da vítima. A adolescente denunciou e ele foi preso. Mas Débora Mafra afirma, em conversa com o Portal Marcos Santos, que nem sempre o criminoso é preso. Mafra ressalta que o mundo cibernético permite o uso de máscaras para cometer crimes, tanto sexuais quanto patrimoniais. Quem tem carência emocional torna-se vítima desses predadores. Ela orienta: “Nunca converse com desconhecidos. Não caia nesta cilada. Você não sabe quais as intenções verdadeiras de quem fala do outro lado do computador ou do celular”.


Conhecendo o predador A delegada contou que, ano passado, investigou um caso oriundo do mundo cibernético. A vítima entrou em um aplicativo de encontros amorosos e o homem dizia ser engenheiro. “Disse que tinha dinheiro no banco e não tinha com quem gastar. Era solteiro e sem filhos, a procura de um grande amor”, conta. “Esse é o discurso de muitos criminosos”, acrescenta. A mulher, que era separada e estava reformando a casa, acreditou e começou a teclar com ele. Mesmo sabendo que o pretendente era de outro Estado, aceitou que viesse para Manaus ficar na casa dela. Era hora de se conhecerem, finalmente, e terem um relacionamento real e não mais virtual. A delegada revela que ele veio para Manaus, mas, para surpresa da vítima, não era o mesmo da foto. O suspeito então disse que não usava a foto verdadeira “por segurança”. Sem aceitar a justificativa, a mulher não o deixou entrar na casa dela. Foi então que ele entrou à força, bateu nela e a estuprou. O sonho virtual se transformou num trauma real na vida da mulher. A vítima, segundo a delegada, disse que chamaria a polícia. Só aí ele decidiu ir embora. Uma semana depois, porém, arrombou a porta, entrou e voltou a praticar violência física e ameaças contra ela. “A mulher estava apavorada. Ele não era engenheiro, não tinha dinheiro e a estava maltratando. A moça registrou Boletim de Ocorrência e levou o número de nossa equipe. Ele foi preso em flagrante, no momento em que foi ameaçá-la no trabalho. Queria retornar para a casa dela. Ele tornou a vida dela um pesadelo”, conta. Ao ser preso, a polícia constatou que ele tinha passagem na Justiça, em Roraima. “Este foi um dos piores casos e ficou na minha memória”, conta Débora. Na maioria dos casos, segundo Mafra, as mulheres se encontram com os homens e são estupradas. A vítima nunca mais encontra o algoz ou só o vê quando ele é preso. Predadores com corpões Os abusadores se escondem e se misturam no meio da internet. Muito cuidado na hora de se envolver com algum “conhecido” das redes. Foto: Reprodução Um grupo de mulheres manauaras, todas acostumadas a lidar com público, começou a se relacionar com “irmãos” e “amigos” virtuais. Eles eram todos “gatos”. Exibiam os corpões em seus perfis do Facebook. Um respaldava o outro, reafirmando sinceridade e posses. Até que um deles foi preso e precisou “urgentemente” de R$ 1,5 mil. Era para pagar advogado. Outro, solteiro e morando com a mãe, viúva, foi ameaçado de despejo. Recorreu à namorada virtual, também pedindo dinheiro. O resultado do tal namoro com o grupo de bonitões foi um desfalque expressivo nas parcas economias das vítimas. Elas foram à polícia e então descobriram que uma “irmã” dos namorados era quem personalizava todos eles. “Homossexual, ela criou os personagens para arrancar dinheiro de mulheres carentes. Ela estava presa, em outro Estado”, conta uma policial que investigou o caso. Cuidados ao marcar encontro É melhor evitar esse tipo de encontro, adverte a delegada Débora Mafra. Mas ela elenca quatro dicas para quem for insistente e quiser encontrar com pessoas que conhecer na internet:


1 – Não marcar. Nunca marque nada com desconhecidos; 2- Se marcar, nunca vá sozinha. Leve sempre um (a) amigo (a) com você; 3 – Marque sempre em locais públicos, com segurança, como shoppings e praças públicas, onde haja movimento. 4 – Ao conhecer alguém assim, antes do encontro real, tente investigar o máximo que puder sobre ele. Sabendo nome, família, endereço e local de trabalho é mais fácil encontrar alguma mentira. Caso de repercussão nacional A Folha de S. Paulo publicou, em outubro de 2017, matéria sobre estupradores que atacam mulheres conhecidas por aplicativos. Entre os casos relatados, um foi de Manaus. A mulher tinha 26 anos e disse que foi estuprada depois de ter saído com um rapaz (militar) que conheceu pelo aplicativo Tinder. Ela não o denunciou com medo porque ele sabia onde ela morava e era militar. A vítima contou à Folha que o homem a levou para jantar em apartamento que dividia com casal de amigos. Depois de muita conversa, ela decidiu ir adiante no encontro e manter relações sexuais com ele. Antes, porém, ele havia dado um remédio para dores musculares. Ela desmaiou em questão de minutos, após tomar o remédio. Não lembra de nada até acordar, sentindo sonolência, com dores no ânus e marcas de mordidas no corpo. A vítima percebeu o que havia ocorrido, pediu para ir embora e chamar um táxi. O suspeito não a deixou ir. Pegou uma arma na gaveta, fazendo sinal de silêncio. Colocou a arma na cintura e a levou para casa, intimidando-a.


A culpa não é da mulher


O Brasil tem uma das maiores taxas mundiais de homicídios contra a mulher. Mais de 50% dessas violências são realizadas por familiares, parceiros ou ex-parceiros das vítimas. O fato está no Mapa de Violência e Homicídio contra Mulher, de 2015. O psicólogo e sexólogo Isaac Oliveira afirma que a sociedade brasileira ainda é reconhecida como patriarcal e machista. Há muita desvalorização e desmoralização da mulher nos mais diversos contextos. “A mulher nunca é culpada. Culpada é a sociedade. Acaba tendo conceitos errôneos, sem saber o que de fato significa a violência de gênero, emitindo opiniões”. Para ele, tudo começa na infância. “A criança, no caso o menino, entende quando os pais dizem que ele é ‘homem’. Tem que dominar, ser corajoso e dizer que pode tudo. Os pais começam a permitir, ‘sem querer’, que ele tome consciência de que ele pode tudo mesmo. São situações simples e inconscientes que temos que começar a corrigir desde cedo. Tudo começa na infância. Só acaba potencializando”, enfatiza.


Machismo enraizado


O cientista social Luiz Antônio Nascimento, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), afirma que a sociedade brasileira tem conteúdo machista extremante enraizado. Parte disso é resultado do modelo de formação de sociedade judaico-cristã. Nele, a mulher é sempre colocada em posição inferior ao homem. O professor explica que mulher nenhuma procura ser estuprada ou tem culpa por ser estuprada. Quem tem culpa é o sujeito que cometeu o ato de violência sexual – o estupro. “Podemos até falar de culpas colaterais, mesmo não justificando. Por exemplo, o tipo de formação e civilidade a que esse sujeito foi submetido. Muito provavelmente teve práticas abusivas e violentas na escola e quase todos os abusadores podem ter sido abusados quando crianças”. Na visão da Sociologia, o estupro é prática do machista, abusador, violento, que deve ser denunciado e combatido severamente.


Denuncie


O quanto antes denunciar é melhor, para garantir a segurança da vítima.




Penélope Antony, advogada e professora do Curso de Direito da UniNilton Lins, informa como são as coisas do ângulo legal. “Além de agressão física, ameaças e ofensas, imposição de sofrimento psicológico, danos morais ou patrimoniais, também são considerados violência”. “Todos estes itens estão previstos no artigo 50 da Lei Maria da Penha. Ele inclui violências sofridas no âmbito familiar ou domiciliar. Já no abuso sexual, não é preciso que haja penetração para que seja considerado estupro. A prática de atos libidinosos, sob ameaça ou violência, também se enquadra no crime. Está previsto no artigo 213 do Código Penal Brasileiro”, explica a advogada.


As penas variam de seis a dez anos de prisão. Há agravantes em caso de morte, lesões corporais graves ou prática com menores de idade. A advogada ressalta que a primeira coisa é ir à delegacia mais próxima e registrar um Boletim de Ocorrência. “Isso é para que as marcas da agressão não sumam. Assim haverá provas. O delegado deverá instaurar inquérito policial e encaminhar a vítima para Instituto Médico Legal, para registrar vestígios da agressão. A autoridade policial vai oferecer medidas protetivas de emergência”, explicou.


As medidas imediatas serão tirar o agressor do lar. Determinar distância mínima entre vítima e agressor. E encaminhar a mulher para um abrigo, cujo endereço é secreto. Caso a mulher seja ameaçada novamente, as medidas são as mesmas. Após o registro da ocorrência, a Polícia Civil deve investigar o caso e encaminhar para o fórum. Provas e testemunhas auxiliam no inquérito, como mensagens de texto, áudios, familiares ou vizinhos que presenciaram ameaças.


“O quanto antes denunciar é melhor, para garantir a segurança da vítima”, adverte.


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